sábado, 4 de dezembro de 2010

Resenha: Jane Jacobs - Morte e Vida das Grandes Cidades


No livro “Morte e Vida das Grandes Cidades” um dos tópicos abordados por Jane Jacobs é a calçada. Para a autora as calçadas das cidades estão relacionadas à segurança, ao contato e à integração das crianças. Jane faz suas analise na maioria das vezes utilizando exemplo, que em especial, referem-se ao planejamento urbano das cidades dos EUA.

            Segundo Jacobs, as calçadas desempenham papel fundamental para a manutenção da segurança nas cidades. Quando dizemos que uma cidade não é segura, estamos nos referindo às suas calçadas, assim o principal ponto da argumentação de Jacobs é essencialmente a presença de desconhecidos nessas, de forma que a manutenção da segurança não é feita pela polícia (ou pelo menos não apenas por ela, que também é necessária), mas …

[...]pela rede intrincada, quase inconsciente, de controles e padrões de comportamento espontâneos presentes em meio ao próprio povo e por ele aplicados. (JACOBS, 2000, p. 32)

Jacobs propõe, então, três condições para que haja pessoas suficientemente nas ruas de forma que elas exerçam a vigilância natural sobre os espaços públicos e, com isso, diminuam a violência:

1-      Deve ser nítida a separação entre o espaço público e o espaço privado: Para muitos essa é uma crítica direta aos ideais modernistas, então em voga, de construir edificações sobre pilotis soltas sobre amplas áreas verdes, de forma que os espaços públicos permeassem todo o bairro. A autora parece entender que tal configuração é prejudicial à segurança porque “borra” os limites do que é visto como responsabilidade de cada pessoa no que diz respeito à vigilância natural.

2-      Devem existir os olhos da rua: Os olhos da rua são as pessoas que, consciente ou inconscientemente, utilizam o espaço público e/ou costumam contemplá-los de suas casas, exercendo uma vigilância natural sobre o que ali acontece. Jacobs cita como contra-exemplo alguns edifícios muito verticalizados, em que os corredores eram inacessíveis aos olhos, apesar de serem de acesso público, e por isso sofriam enormemente com a depredação e a violência.

3-      A calçada deve ter usuários transitando ininterruptamente: Esse requisito está intimamente ligado ao anterior, uma vez que uma quantidade significativa de pessoas transitando e utilizando as ruas é condição necessária para que haja olhos da rua, visto que as próprias pessoas que usam e transitam pela rua acabam exercendo uma vigilância natural. Como solução para esse problema. Jane sugere a existência de comércios, que são capazes de atrair pessoas, e assim movimentação nas redondezas.

Jane Jacobs, também comenta em seu livro que as calçadas (que devem ser largas) podem ser mais importantes do que parques para as atividades das crianças, pois “espaços e equipamentos não cuidam de crianças”. Para ela, o urbanismo ortodoxo atribui às áreas livres uma importância exagerada além de ser inimigo da rua. O grande número de áreas livres previstas nos conjuntos habitacionais não se prestam aos encontros, mas ao contrário, freqüentemente à violência. O paisagismo não garante o uso de uma área livre mas sim a sua vizinhança e esta está condicionada à diversidade e intensidade de usos. E é nesse ponto, que a autora faz e deixa em aberto um questionamento: “Porque é tão freqüente não haver ninguém onde há parques e nenhum parque onde há gente?”

Mesmo tendo sido formulada há mais de meio século as idéias de Jacobs, são muito válidas para as cidades atuais. A questão da interação entre estranhos e moradores locais ainda permanece significativa As idéias de Jacobs, apesar de terem sido formuladas há meio século, ainda parecem ser válidas, no seu conjunto, para as cidades atuais. A questão da interação entre estranhos e moradores locais ainda permanece significativa (condomínios fechados, são um exemplo), e longe de uma solução satisfatória.

Assim “os olhos da rua”, uma das suas principais contribuições, permancece mais válido que nunca e, no entanto, cada vez mais presenciamos situações em que as edificações viram-se de costas para o espaço público, renegando-o.

Referencia:
JACOBS, Jane. Morte e vida de grandes cidades. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

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